TEORIA GERAL DOS SISTEMAS
O ESQUELETO DA CIÊNCIA
Tradução do Artigo "General Systems Theory - A Skeleton of Science".
Kenneth E. Boulding
Teoria Geral dos Sistemas é o nome que tem sido dado ao nível de estrutura teórica situada em algum lugar entre as construções altamente generalizadas da matemática pura e as teorias específicas das disciplinas especializadas. A matemática tenta organizar relações altamente gerais num sistema coerente, sistema esse, contudo, que não tem necessariamente nenhuma relação com o mundo "real" que nos cerca. Ela estuda todas as relações possíveis de se conceber, abstraídas de situação concreta de um corpo de conhecimentos empíricos. Não se restringe nem mesmo a relações "qualitativas" stricto sensu - na verdade já começa o desenvolvimento da matemática quantitativa e estrutural, muito embora não esteja tão avançada quanto a matemática clássica do número e quantidade. Não obstante, a matemática, num certo sentido não encerra nenhuma teoria, uma vez que encerra todas; é a linguagem da teoria, mas não nos fornece seu conteúdo. No outro extremo temos as disciplinas isoladas e as ciências, com seus grupos de teorias distintas. Cada disciplina corresponde a um certo segmento do mundo empírico, e cada um desenvolve teorias que têm determinada aplicação no seu próprio segmento empírico. A Física, Química, Biologia, Psicologia, Sociologia, Economia etc., todas manipulam certos elementos da experiência humana, desenvolvem teorias e padrões de atividades (pesquisa) que facilitam o entendimento e que são apropriados aos seus segmentos específicos.
Nos últimos anos tem sido sentida uma crescente necessidade de um corpo sistemático de construções teóricas que trate das relações gerais do mundo empírico. Este é o objetivo da Teoria Geral dos Sistemas. Obviamente ela não procura estabelecer uma única e completa "teoria geral de todas as coisas" que substituísse todas as teorias especiais das disciplinas particulares. Tal teoria seria quase desprovida de substância uma vez que a generalidade é sempre obtida às custas do conteúdo. Tudo que se pode dizer sobre praticamente todas as coisas é quase nada. Contudo, entre o específico que não tem nenhum sentido e o geral desprovido de conteúdo, deve existir, para cada propósito e a cada nível de abstração, um grau ótimo de generalidade. Contestam os Teóricos dos Sistemas Gerais que tal nível ótimo de generalidade teórica seja sempre atingido pelas ciências particulares. Os objetivos da Teoria Geral dos Sistemas podem estão ser estabelecidos em graus variáveis de ambição e confiança. Para um baixo nível de ambição mas com um alto grau de confiança a T.G.S. objetiva identificar semelhanças nas construções teóricas das diferentes disciplinas, e desenvolver modelos teóricos aplicáveis pelo menos a dois diferentes campos de estudo. Para um alto nível de ambição, mas talvez com baixo grau de confiança a T.G.S. espera desenvolver algo semelhante a um "espectro" de teorias - um sistema de sistemas que possa desempenhar a função de um "gestalt" na construção teórica.
Tais "gestalts" têm sido de inestimável valor na orientação da pesquisa para certas lacunas reveladas em campos especiais.
A tabela periódica de elementos na química, por exemplo, até que a mesma fosse inteiramente completada, orientou a pesquisa por várias décadas para a descoberta de elementos desconhecidos, a fim de completar os vazios existentes na tabela.
De maneira semelhante, um "sistema de sistemas" pode ser de valor para orientar a atenção dos teóricos para lacunas existentes em modelos teóricos, e até mesmo pode ser útil para indicar maneiras de preenchê-las.
A atual conjuntura sociológica da ciência aumenta a necessidade de uma teoria geral dos sistemas. O conhecimento não é algo que exista e se desenvolva por si só. É função dos organismos humanos e da ordem social. O conhecimento, em outras palavras, é sempre aquilo que alguém conhece: a mais perfeita reprodução escrita de um conhecimento não é considerada como tal se ninguém a conhece. O conhecimento se desenvolve pela captação de informação significativa - isto é, pelo influxo de mensagens capazes de reorganizar o conhecimento daquele que as recebe. Evitaremos a indagação de qual reorganização constitui incremento de conhecimento, definindo "aumento semântico" do conhecimento como aquelas reorganizações que podem ser proveitosamente discutidas em escritos ou oralmente. Ciência, em outras palavras, é aquilo que pode ser discutido proveitosamente pelos cientistas em seus papéis de cientistas. A crise da ciência hoje, surge da crescente dificuldade de tal diálogo proveitoso entre os cientistas como um todo. A especialização tem impedido o intercâmbio, a comunicação entre os discípulos torna-se mais e mais difícil, e a República do Saber fragmenta-se em subculturas isoladas - situação que traz em si mesma a ameaça de uma guerra civil intelectual. O motivo para essa ruptura no campo do conhecimento é que, no processo mesmo da especialização, os próprios receptores da informação tornam-se especializados. Assim, os físicos somente falam para os físicos, economistas para economistas - o que é ainda pior, os físicos nucleares falam apenas para físicos nucleares e os econometristas para econometristas. Às vezes nos perguntamos se a ciência não terminará ainda por ser um grupo de impenetráveis ermitões, cada um a murmurar palavras numa linguagem particular que somente eles possam entender. Nos dias atuais as artes podem ter superado as ciências nesse deserto de incompreensão mútua, mas isto pode ter sido meramente porque as prontas intuições da arte tenham atingido o futuro mais rapidamente do que o passo lento e penoso do trabalho do cientista. Quanto mais a ciência se fragmente em subgrupos, e menor seja a possibilidade de comunicação entre as disciplinas, maior será a possibilidade de que o crescimento do conhecimento esteja diminuindo pela perda de comunicações relevantes. A difusão da surdez especializada significa que alguém que deva saber alguma coisa que alguém mais conhece não consiga fazê-lo por lhe faltar o sentido da audição generalizada.
Um dos objetivos básicos da T.G.S. é desenvolver essa capacidade auditiva generalizada. Outro é capacitar um especialista qualquer a captar relevantes comunicações de outros, pelo desenvolvimento de uma estrutura teórica geral. Assim, um economista que perceba a forte semelhança formal entre a teoria da utilidade, na economia, e a teoria do campo na física, estará provavelmente numa melhor posição para entender um físico do que outro que não perceba tal semelhança. Analogamente, um especialista que trabalhe com o conceito de crescimento - não importa se cristalógrafo, virologista, citologista, fisiólogo, psicólogo, sociólogo ou economista - será mais sensível às construções de outros campos se estiver atento para as muitas semelhanças no processo de crescimento em campos empíricos totalmente diversos.
Não existe muita dúvida quanto à procura por uma teoria geral dos sistemas, qualquer que seja o nome que lhe dêem. A coisa torna-se um pouco mais embaraçosa quando se investiga a oferta. Existe alguma? Se existe, onde encontrá-la? Qual a possibilidade de se tirar partido dela? E como? A situação pode ser descrita como promissora e em fermentação, apesar de não estar suficientemente claro o que está sendo prometido ou em preparação.
Algo que pode ser chamado de "movimento interdisciplinar" surgiu há algum tempo. Os primeiros sinais disto são as disciplinas híbridas. A físico-química surgiu no terceiro quarto do século XIX, a psicologia social no segundo quarto do século XX. No campo das ciências físicas e biológicas a lista de disciplinas híbridas atualmente é bastante grande biofísica, bioquímica, astrofísica são todas bastante desenvolvidas. No campo das ciências sociais a antropologia social está completamente firmada, a psicologia econômica e a sociologia econômica estão apenas começando. Existem indícios de que mesmo a Economia Política, que morrera na infância algumas centenas de anos passados, possa renascer.
Nos últimos anos tem havido um desenvolvimento adicional de grande interesse na forma das inter-disciplinas "multisexuais" As disciplinas híbridas, como os seus nomes cheios de hífens indicam, originaram-se de dois honestos e respeitáveis pais acadêmicos. As mais recentes inter-disciplinas têm uma descendência muito mais variada e ocasionalmente até mesmo mais obscura, resultam da reorganização de material originário de muitos campos de estudo. A cibernética, por exemplo, deriva-se da engenharia elétrica, neurofisiologia, física, e possui alguma tintura de economia. A teoria da informática, que originou-se da engenharia das comunicações, tem importantes aplicações em diversos campos, indo da biologia até as ciências sociais. A teoria da organização deriva-se da economia, sociologia, engenharia, fisiologia e a própria Ciência da Administração é igualmente um produto multidisciplinar.
Do lado mais empírico e prático, o movimento interdisciplinar reflete-se no desenvolvimento de organizações multidepartamentais de várias espécies. Algumas delas encontram o fundamento da sua unidade no campo prático que estudam, tais como institutos de relações industriais, de administração pública, de assuntos internacionais e assim por diante. Outras são organizadas em torno da metodologia comum que aplicam a diferentes campos e problemas. Mais importante até do que tais visíveis desenvolvimentos, embora mais difícil de ser percebido e identificado, seja a crescente insatisfação em muitos departamentos, especialmente no nível universitário, com os fundamentos teóricos existentes aplicáveis a estudos empíricos que constituem a principal parte do produto das teses de doutoramento. Para dar apenas um exemplo com o qual estou bastante familiarizado, constitui-se uma tradição que os estudos de relações do trabalho, moedas e bancos, e investimento estrangeiro, sejam feitos nos departamentos de economia. Muitos dos modelos teóricos necessários a esses campos não originam-se da "teoria econômica" como é freqüentemente ensinado, mas da sociologia, psicologia social, e antropologia cultural. Os estudantes do departamento de economia raramente têm a oportunidade de familiarizarem-se com estes modelos teóricos que podem ser relevantes para seus estudos, e tornam-se insatisfeitos com teoria econômica, em muitos casos de importância secundária.
Nota-se, claramente, uma grande agitação interdisciplinar. Para que tal estímulo seja produtivo, contudo, deve funcionar dentro de uma estrutura coerente. É muito fácil o interdisciplinar transformar-se em indisciplinar. Para que o movimento interdisciplinar não perca o sentido de forma a estrutura que caracteriza a "disciplina" envolvida nas várias disciplinas distintas, deve desenvolver sua própria estrutura. Isto é o que entendo ser a grande tarefa da Teoria Geral dos Sistemas. Durante todo o restante deste artigo, portanto, me proponho examinar algumas das possíveis maneiras em que pode ser estruturada a Teoria dos Sistemas.
Pensa-se logo em duas possíveis abordagens para a estruturação da Teoria Geral dos Sistemas, abordagens estas que devem ser consideradas complementares e não competitivas, ou pelo menos como dois caminhos que valem a pena serem percorridos. A primeira maneira seria examinar o universo empírico e selecionar fenômenos gerais presentes em muitas disciplinas diferentes e procurar construir modelos teóricos gerais de relevância para aqueles fenômenos.
A segunda maneira seria ordenar os vários campos empíricos, segundo uma hierarquia de complexidade de organização dos seus componentes elementares básicos ou unidade de comportamento, e tentar desenvolver um nível de abstração apropriado a cada um.
Alguns exemplos da primeira abordagem servirão para esclarecê-la, sem no entanto pretendermos ser exaustivos. Em quase todas as disciplinas, por exemplo, encontramos populações - agregados de indivíduos correspondentes a uma definição comum. A essas populações são adicionados (nascimento) e subtraídos (morte) indivíduos. Nelas a idade de cada indivíduo é uma variável verificável e relevante. Estas populações apresentam movimentos dinâmicos próprios, que podem ser freqüentemente descritos por sistemas de equações de diferenças bastante simples. As populações de diferentes tipos também apresentam interações dinâmicas entre elas, como na teoria de Volterra. Os modelos de variação populacional e interação abrangem uma infinidade de diferentes campos - sistemas ecológicos em biologia, a teoria do capital em economia que trata de populações de "bens", e até mesmo certos problemas de mecânica estatística. Em todos esses campos a variação populacional, tanto em números absolutos quanto em estrutura, pode ser discutida através da função nascimento e da função sobrevivência, relacionando os números de nascimentos e mortes em grupos etários específicos aos vários aspectos do sistema.
Em todos esses campos a interação da população pode ser discutida em termos de relações competitivas, complementares ou parasitárias entre populações de diferentes gêneros, seja animais, mercadorias, classes sociais ou moléculas.
Outro fenômeno de significação praticamente universal para todas as disciplinas é o da interação de algum tipo de "indivíduo" com o seu meio ambiente. Cada disciplina estuda algum tipo de indivíduo - elétron, átomo, molécula, cristal, vírus, célula, planta, animal, homem, família, tribo, estado, igreja, firma, corporação, universidade, Tc... Cada um destes indivíduos apresenta "comportamento", ação, ou mudança. Considera-se que tal comportamento esteja ligado de um certo modo ao meio ambiente do indivíduo - isto é, com outros indivíduos com os quais entra em contato ou se relaciona de alguma maneira. Considera-se cada indivíduo como sendo uma estrutura ou complexo de indivíduos de ordem imediatamente inferior - os átomos são arranjos de prótons e elétrons, as moléculas um sistema de átomos, as células uma organização de moléculas, as plantas, animais e homens um sistema de células, as organizações sociais uma estrutura de homens. O "comportamento" de cada indivíduo é "explicado" pela estrutura e organização dos indivíduos inferiores dos quais são compostos, ou por certos princípios de equilíbrio ou homeostase segundo os quais certos "estados" do indivíduo são "preferidos". O comportamento é descrito em termos da restauração desses estados preferenciais, quando os mesmos são perturbados por mudanças ambientais.
Outro fenômeno de universal significação é o crescimento. A teoria do crescimento é , em um certo sentido, uma subdivisão da teoria do "comportamento" individual, sendo o crescimento, um importante aspecto do comportamento. Não obstante, existem importantes diferenças entre a teoria do equilíbrio e a teoria do crescimento que talvez autorizem a classificação da teoria de crescimento numa categoria especial. Dificilmente existe uma ciência em que o fenômeno do crescimento não tenha alguma importância, e apesar de haver uma grande diferença de complexidade entre o crescimento dos cristais, embriões e as sociedades, muitos dos princípios e conceitos que são importantes em níveis inferiores são também elucidativos em níveis mais altos. Alguns fenômenos de crescimento podem ser tratados em termos de modelos populacionais relativamente simples, cujas soluções fornecem curvas de uma única variável. A níveis mais complexos, os problemas estruturais tornam-se a dominante, e as complexas inter-relações entre crescimento e forma são os focos de interesse. Todos os fenômenos de crescimento são suficientemente semelhantes, contudo, para sugerir que uma Teoria Geral do Crescimento não seja em absoluto uma impossibilidade.
Outro aspecto da teoria do indivíduo e também das interpelações entre indivíduos que pode ser escolhido para tratamento especial é a teoria da informação e comunicação. O conceito de informação como definido por Shannon tem tido interessantes aplicações fora do seu campo original, a engenharia elétrica.
Obviamente, não seria adequado tratar de problemas envolvendo o nível semântico da comunicação. Ao nível biológico, contudo, o conceito de informação pode ser útil para desenvolver noções gerais de estruturação e medidas abstratas de organização que nos forneçam uma terceira dimensão básica, além da massa e energia. Os processos de informação e comunicação são encontrados numa grande variedade de situações empíricas e são inquestionavelmente essenciais mo desenvolvimento da organização, tanto no mundo social quanto biológico.
Essas várias abordagens dos sistemas gerais através dos variados aspectos do mundo empírico podem levar, no final, a qualquer coisa semelhante à Teoria Geral do Campo da Dinâmica da Ação e Interação. Isto, contudo, é um longo caminho à frente.
Uma segunda maneira possível de abordar a Teoria Geral dos Sistemas seria através da ordenação de sistemas e modelos teóricos segundo uma hierarquia de complexidade, correspondente aproximadamente à complexidade dos "indivíduos" dos vários campos empíricos.
Esta maneira de abordar o problema é mais sistêmica do que a outra, levando a um "sistema de sistemas". Ela contudo não substitui inteiramente a primeira, na medida em que possam sempre existir importantes conceitos e modelos teóricos fora da estrutura sistêmica. Sugiro abaixo uma possível ordenação de "níveis" de discussão teórica.
[I] - O primeiro nível é o da estrutura estática. Pode ser chamado o nível de estruturas. Este corresponde à geografia e anatomia do universo - a disposição dos elétrons em torno de um núcleo, a disposição dos átomos na fórmula molecular, a arrumação dos átomos num cristal, a anatomia do gene, a célula, o animal, o delineamento da terra, o sistema solar, o universo astronômico. A acurada descrição dessas estruturas é o começo do conhecimento teórico organizado em quase todos os campos, uma vez que, sem precisão na descrição de relações estáticas, não é possível nenhuma teoria funcional ou dinâmica precisa. Assim, a revolução Coperniana foi realmente a descoberta de uma nova configuração estática para o sistema solar, o que permitiu uma descrição mais simples da sua dinâmica.
[II] - O próximo nível de análise sistêmica é o do sistema simples, com movimentos necessários e predeterminados. Este pode ser chamado o nível dos mecanismos (clockworks). O sistema solar é o maior relógio do universo do ponto de vista do homem, e as maravilhosamente exatas predições dos astrônomos são uma prova da excelência do relógio que estudam. Máquinas simples tais como a alavanca e a polia, e até mesmo máquinas bastante complicadas como os mecanismos a vapor e dínamos, são classificados nesta categoria. Dois casos especiais devem ser notados. Os sistemas de equilíbrio simples realmente caem na categoria dinâmica, na medida em que todo sistema de equilíbrio deva ser considerado um caso limite de um sistema dinâmico, e em que sua estabilidade não possa ser determinada senão através das propriedades do sistema dinâmico. Os sistemas dinâmicos estocásticos tendentes ao equilíbrio, por todas as suas complexidades, são considerados nesse grupo de sistemas; tal é a visão moderna do átomo e mesmo da molécula, cada posição ou parte do sistema sendo dada com certo grau de probabilidade, o todo, contudo, apresentando uma estrutura determinada. Dois tipos de métodos analíticos são importantes aqui. Para usar a linguagem dos economistas, chamemo-los de estático comparativo e dinâmico puro. No estático comparativo, comparamos duas posições de equilíbrio do sistema para diferentes valores dos parâmetros básicos. Essas posições de equilíbrio são usualmente expressas em termos da solução de um conjunto de equações simultâneas. O método estático-comparativo compara as soluções dos sistemas quando varia-se os parâmetros das equações. Os problemas mecânicos mais simples são assim resolvidos. No dinâmico puro, por outro lado, apresentamos o sistema como um conjunto de equações de diferença ou de equações diferenciais, cuja solução são funções explícitas que relacionam cada variável com o tempo.
Tal sistema pode ou não alcançar um equilíbrio estacionário - existem muitos exemplos de sistemas dinâmicos explosivos, o crescimento de uma soma e uma taxa composta de juros, seria um dos exemplos mais simples. A maioria das reações físicas e químicas e muitos sistemas sociais apresentam uma tendência ao equilíbrio - de outra forma o mundo há muito tempo já teria explodido ou "implodido".
[III]- O próximo é o do mecanismo de controle ou sistema cibernético que pode ser apelidado de termostato. Este difere do sistema de equilíbrio estável simples, basicamente no fato de que a transmissão e interpretação da informação seja uma parte essencial do sistema. Como resultado disso, a posição de equilíbrio não será determinada simplesmente pelas equações do sistema, mas, dentro de certos limites, o sistema se deslocará no sentido de manter um dado equilíbrio qualquer. Assim o termostato manterá qualquer temperatura para a qual foi regulado; a temperatura de equilíbrio do sistema não é determinada somente por suas equações. O artifício neste caso é que a variável essencial do sistema dinâmico é dada pela diferença entre o valor "observado" ou "registrado" da variável controlada e o seu valor "ideal". Se esta diferença não for zero, o sistema se deslocará no sentido de diminuí-la; num forno, por exemplo, aumenta-se o calor quando se registra uma temperatura "muito fria" e diminui-se o calor se registra uma temperatura "muito quente". O modelo homeostático, de fundamental importância em fisiologia, é um exemplo de um mecanismo cibernético, e tais mecanismos existem por todo o mundo empírico do biologista e do cientista social.
[IV] - O quarto nível é o do "sistema aberto", ou estrutura auto-sustentável. Este é o nível em que a vida começa a diferenciar-se da não-vida: pode ser chamado o nível da célula. Obviamente existe alguma coisa semelhante a um sistema aberto, mesmo em sistemas de equilíbrio físico-químico, as estruturas atômicas mantêm-se em meio a um "throughput" de átomos. As chamas e os rios são essencialmente sistema abertos de um tipo muito simples. À medida que subimos na escala de complexidade das organizações em direção aos sistemas vivos, contudo, a propriedade de auto manutenção de estrutura em meio a um "throughput" de matéria torna-se de importância relevante. Um átomo ou uma molécula pode presumivelmente existir sem "throughput": a existência, mesmo dos mais simples organismos vivos é inconcebível sem a ingestão, a excreção ou trocas metabólicas. Bastante ligado à propriedade de auto-manutenção é a propriedade de auto-reprodução. Na verdade, pode até ser que a auto-reprodução seja um sistema mais primitivo ou mais elementar que um sistema aberto, e que o gene e o vírus, por exemplo, sejam capazes de reproduzirem-se sem ser um sistema aberto. Talvez não seja de fundamental importância saber em que ponto da escala de complexidade crescente começa a "vida".
O que é evidente, contudo, é que dificilmente se possa negar o título de "vida" aos sistemas que se auto-sustentam e se auto-reproduzem em meio a um "throughput" de matéria e energia.
[V] - O quinto nível pode ser chamado de nível genético-societário; é tipificado pela planta, e domina o mundo empírico do botânico. As características mais marcantes desses sistemas são, primeiro, a divisão de trabalho entre as células para formar uma sociedade de células com partes mutuamente dependentes e diferenciadas (raízes, folhas, sementes etc.), e, segundo, uma marcante diferenciação entre o fenótipo e o genótipo, associada com o fenômeno do crescimento, equifinal ou "programado" (blueprinted growth). A esse nível, não existem órgãos sensitivos altamente especializados e os receptores de informação são difusos e incapazes de grandes "throughput" de informação - é duvidoso que uma árvore possa fazer muita distinção entre a luz e a escuridão, entre dias longos e dias custos, entre o frio e o calor.
[VI] - À medida que ascendemos do mundo vegetal em direção ao reino animal, gradualmente passamos a um novo nível, o nível animal, caracterizado por uma maior mobilidade, comportamento teleológico, auto-percepção. Neste estágio temos o desenvolvimento de receptores de informação especializados (olhos, ouvidos etc.), levando a um enorme aumento do influxo de informações; temos também um grande desenvolvimento dos sistemas nervosos, levando no final à formação do cérebro, que organiza os influxos de informações, numa estrutura de conhecimento ou imagem. À medida que ascendemos na escala animal, cada vez mais o comportamento representa resposta, não a estímulos, específicos, mas a uma "imagem" ou estrutura de conhecimento ou percepção do meio ambiente como um todo. Tal imagem é determinada, em última análise, por informações recebidas dentro de organismos; a relação entre a recepção da informação de uma imagem é extremamente complexa. Não é apenas uma simples acumulação de informações recebidas, apesar de isso acontecer freqüentemente, mas uma estruturação delas numa coisa essencialmente diferente da própria informação. Uma vez bem estabelecida a estrutura da imagem, muitas informações recebidas produzem poucas mudanças na imagem - passam através da estrutura sem chocar-se com a mesma, de maneira semelhante a uma partícula subatômica que atravessa o átomo sem chocar-se em nada. Às vezes, contudo, a informação é captada pela imagem e somada a ela. Outras vezes a informação choca-se com algum tipo de "núcleo" da imagem e uma reorganização se processa, com profundas e radicais mudanças de comportamento, numa evidente resposta a um estímulo aparentemente muito pequeno. A dificuldade na predição do comportamento desses sistemas surge basicamente por causa da interferência da imagem entre o estímulo e a resposta.
[VII]- Por causa da importância fundamental para o homem individual das imagens simbólicas e do seu comportamento baseado nelas, não é fácil separar claramente o nível do organismo humano do das organizações sociais. A despeito das estórias ocasionais sobre crianças selvagens criadas por animais, o homem isolado de seus companheiros é praticamente desconhecido. Tão essencial é a imagem simbólica no comportamento humano que suspeita-se que um homem completamente isolado não seja humano no sentido usual do termo, embora seja potencialmente humano. Não obstante será conveniente para alguns propósitos distinguir o indivíduo humano como um sistema, do sistema social que o rodeia, e nesse sentido as organizações sociais podem ser consideradas como constituindo outro nível de organização. A unidade de tal sistema não é talvez a pessoa - indivíduo humano como tal - mas a "função" - aquela parte da pessoa relacionada com a organização ou situação em questão. Seria tentador definir as organizações sociais, ou qualquer sistema social como um conjunto de funções estreitamente ligado aos canais de comunicação. As inter-relações entre a função e a pessoa não podem jamais ser negligenciadas - uma pessoa limitada, numa função que exija criatividade, pode tornar-se um pouco mais criativa, mas ela também torna a função mais limitada, e a percepção da função é afetada pelas personalidades que a ocuparam no passado. A esse nível devemos nos preocupar com o conteúdo e significado das mensagens, com a natureza e dimensão de valores, as transcrições das imagens para um contexto histórico, as sutis simbolizações da arte, música e poesia, e com a gama complexa das emoções humanas. Neste estágio, o universo empírico é a vida humana e a sociedade em toda sua complexidade e riqueza.
[VIII] - Para completar a estrutura dos sistemas, resta-nos acrescentar mais um andar à nossa construção, correspondente aos sistemas transcendentes, ainda que possamos ser acusados de termos construído uma alta-Babel. Existem, contudo, as últimas, absolutas e inevitáveis incógnitas. Elas também apresentam relações e estrutura sistêmicas. Será um triste dia para o homem quando não mais existirem perguntas irrespondíveis.
Uma vantagem de se apresentar uma hierarquia de sistemas, do modo que fizemos é que nos dá alguma idéia das lacunas existentes, tanto no conhecimento teórico quanto no empírico. Encontramos adequados modelos teóricos até aproximadamente o quarto nível e não mais além. O conhecimento empírico é deficiente em praticamente todos os níveis. Assim, ao nível de estrutura estática, existem modelos descritivos bastante convenientes para a geografia, química, geologia, anatomia e ciência social descritiva. Mesmo no mais simples dos níveis, contudo, o problema de uma adequada descrição das estruturas complexas está ainda muito distante de uma solução. A teoria da indexação e catalogação, por exemplo, está apenas na infância. As bibliotecas estão bastante avançadas na catalogação de livros, os químicos começaram a catalogar as fórmulas estruturais, os antropólogos, os traços culturais. A catalogação dos eventos, idéias, teorias, estatísticas e dados empíricos apenas começou. A própria multiplicação dos registros, contudo, à medida que o tempo passa, nos forçará a um sistema de catalogação e referência mais adequado do que os existentes. Este talvez seja, ao nível de estrutura estática, o maior problema ainda não resolvido. No campo empírico, existem áreas ainda maiores onde as estruturas estáticas são imperfeitamente conhecidas, apesar de o conhecimento estar avançando rapidamente, graças aos novos instrumentos de investigação, tal como o microscópio eletrônico. A anatomia daquela parte do mundo empírico situada entre a grande molécula e a célula, permanece ainda obscura em muitos pontos. É precisamente esta área, contudo que inclui, por exemplo o gene e o vírus - que mantém o segredo da vida, e até que sua anatomia seja conhecida, a natureza dos sistemas funcionais envolvidos será inevitavelmente obscurecida.
O nível dos "mecanismos" é o nível da ciência natural clássica, especialmente a física e a astronomia, e provavelmente seja o nível mais completamente desenvolvido, especialmente se ampliamos o conceito para incluir no mesmo a teoria do campo de modelos estocásticos da física moderna. Mesmo aqui existem importantes lacunas, especialmente em níveis empíricos mais altos. Existe ainda muito a ser conhecido sobre a mecânica da célula e dos sistemas nervosos, dos cérebros e das sociedades. Além do segundo nível são mais escassos os modelos teóricos satisfatórios. Os últimos anos têm presenciado um grande desenvolvimento do terceiro e quarto níveis. A teoria dos mecanismos de controles (termostato) firmou-se como a nova disciplina da cibernética, e a teoria dos sistemas auto-sustentáveis ou sistemas abertos, da mesma forma, experimentou rápidos avanços. Dificilmente poderíamos afirmar que mais do que o começo tem sido feito nesses campos. Sabemos muito pouco acerca da cibernética dos genes e dos sistemas genéticos, por exemplo, e muito menos ainda acerca dos mecanismos de controles envolvidos no mundo mental e social. De maneira semelhante, o processo de auto-manutenção permanece essencialmente misterioso em muitos pontos, apesar de ter sido sugerida a possibilidade de construção de uma máquina auto-sustentável que será um verdadeiro sistema aberto, parecemos estar a uma longa distância da efetiva construção de uma tal cópia mecânica da vida.
Além do quarto nível pode ser contestado se já temos até mesmo os rudimentos dos sistemas teóricos. O intrincado mecanismo de crescimento pelo qual o complexo genético organiza a matéria, é quase um completo mistério. Até agora, não importa o que aguarda o futuro, somente Deus pode fazer uma árvore. Em face dos sistemas vivos estamos quase que desamparados; não podemos nem mesmo começar a reproduzi-los. O estado ambíguo da medicina, a pairar entre a magia e a ciência, é um testemunho da condição do conhecimento sistemático nessa área. À medida que subimos na escala, a ausência de sistemas teóricos apropriados torna-se mais e mais notável. Dificilmente poderíamos imaginar-mos construindo um sistema que fosse sensível, em qualquer sentido cognoscível, muito menos auto-consciente. Contudo, à medida que nos movemos em direção ao nível societário e humano, uma coisa curiosa acontece: o fato de termos, para dizer, uma posição favorável, e o fato de sermos nós mesmos o sistema que estamos estudando, nos capacita a usarmos o sistema que realmente não entendemos. É quase inconcebível que possamos fazer uma máquina que pudesse fazer poemas: contudo os poemas são feitos por bobos como nós, por processos na maior parte desconhecidos. O tipo de conhecimento que possuímos ao nível simbólico é muito diferente daquele que temos em níveis mais baixos - é como, por exemplo, o "know-how" do gene comparado com o "know-how" do biologista. Não obstante, é um tipo real de conhecimento e é a origem das realizações do homem, como artista, escritor, arquiteto e compositor.
Talvez uma das aplicações mais úteis do esquema dado acima seja o de nos impedir de aceitar como definitivo o nível de análise teórica que está abaixo do nível empírico do mundo que estamos investigando. Como, em um certo sentido, cada nível abrange todos aqueles abaixo dele, valiosas informações podem ser obtidas pela aplicação de sistemas inferiores a assuntos de níveis superiores. Assim, muitos dos esquemas teóricos das ciências sociais estão ainda no nível II subindo agora para o nível III, apesar do assunto claramente envolver o nível VIII. A economia, por exemplo, é largamente ainda uma "mecânica da utilidade e do auto-interesse" na magistral frase de Jevons. Sua base matemática e teórica é derivada em grande parte da teoria do equilíbrio simples e da mecânica. Apenas começou a usar conceitos tais como o de informação, pertencente ao nível III, e não usa sistemas de níveis mas altos. Ademais como este imperfeito aparato, tem conseguido considerável sucesso, no sentido de que alguém que tente manipular um sistema econômico, é quase certo ficar em melhor situação se sabe alguma coisa de economia do que aquele que não sabe. Contudo, em certo ponto, o progresso da economia irá depender da sua habilidade em superar esses sistemas inferiores, úteis que são como primeira aproximação, e utilizar sistemas que são mais apropriados ao seu universo - quando, claro, esses sistemas forem descobertos. Muitos outros exemplos poderiam ser dados - o uso totalmente inapropriado na teoria psicanalítica, por exemplo, do conceito de energia, e a longa inabilidade da psicologia em libertar-se de um estéril modelo de estímulo-resposta.
Finalmente, o esquema acima poderia servir como uma moderada advertência mesmo para a Ciência da Administração. Esta nova disciplina representa um importante avanço em relação aos extremamente simplificados modelos mecânicos da teoria da organização e controle.
Sua ênfase nos sistemas de comunicação e estrutura organizacional, em princípios de homeostase e crescimento, em processos de decisões em situações de incerteza, está nos conduzindo muito além dos simples modelos de maximização do comportamento de até dez anos atrás. Esse avanço no nível de análise teórica com certeza levará a sistemas mais poderosos e produtivos. Contudo, nunca devemos esquecer que mesmo tais avanços não nos conduzirão muito além do terceiro e quarto níveis, e que, ao tratarmos personalidades e organizações humanas, estamos tratando com sistemas do mundo empírico muito além da nossa capacidade de formulação. Não deveremos ficar completamente surpresos então, se nossos sistemas mais simples, não obstante sua importância e validade, ocasionalmente nos desapontem.
Escolhi o subtítulo do meu artigo com o olho no seu possível poder sugestivo. Teoria Geral dos Sistemas é o esqueleto da ciência no sentido de que objetiva fornecer o arcabouço ou estrutura dos sistemas, onde pendurar a carne e o sangue das disciplinas e temas particulares num coerente e ordenado corpo de conhecimento. Tem também algo a ver com um esqueleto num armário - o armário neste caso representado a má vontade da ciência em admitir o baixo nível de suas realizações no que tange à sistematização, e sua tendência a fechar a porta para temas e problemas que não se enquadram facilmente nos esquemas mecânicos simples. As ciências, não obstante todos os seus sucessos, têm ainda um longo caminho a percorrer. A T.G.S. pode, às vezes ser uma perturbação ao indicar o quanto ainda temos de andar, e ao reduzir as excessivas pretensões filosóficas por tão simplificados sistemas. Pode ser também útil ao indicar para onde temos que ir. O esqueleto precisa sair do armário antes que seus secos ossos possam viver.
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